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Você queria mudar o mundo e parar o tempo. É, todo mundo quer. Mas acabou construindo as mesmas coisas, essa série de clichês adultos, como filhos, dizer “sim” na frente de algum juiz de paz, ganhar dinheiro, sobrepeso, netos, diabetes. E também construir uma casa enorme, com piscina e churrasqueira. Aí, quando você já está velho, apto a fazer críticas frontais, soltar palavrões e contar putarias da juventude, enfim, finalmente ter pensamentos de um homem livre, vem a cuidadora de idosos interrompendo a conversa neto-avô, pois já está na hora de trocar a fralda.
Gabito Nunes.    (via t-a-q-u-i-c-a-r-d-i-a)

(Source: s-i-m-p-l-i-f-i-c-a-r)

Não é um conselho alegre, mas vai passar. A voz embargada pela emoção, o tremelique no queixo, as pernas balançando com intranquilidade por debaixo da mesa. Vai passar. Os olhos marejando a saudade, a empatia pela fraqueza, o corpo lutando pra saber o que restará em pé, as frases um pouco mais longas sempre cortadas por um calafrio. Vai passar. A impressão de que se arrebentará chorando. Os trovões percorrendo por todo o corpo dividido. Metade sentindo-se traída e a parte traidora sentindo-se culpada por tudo. Vai passar. Acordarás cinco vezes por noite. Consultarás as cartas, os búzios, a religião e o relógio a cada duas horas até amanhecer. Teu inverno demorará no escuro, teu verão demorará na luz. As garrafas estarão lá, ao lado da porta. As cinzas, dançando por ai. As tuas vão junto. Esquecerás a cafeteira destrancada, a porta ligada, o caminho de volta pra casa. Desesperarás ao ter de suportar a própria companhia no vazio do elevador. Vai passar. As lembranças daquele número de sapatos, do peso, dos ternos, dos sonhos, dos fracassos, se evaporarão como o rio que se transforma em água que se transforma em chuva que se transforma em rio. O calendário naquela mesma folha de fevereiro. E a vida acontecendo como uma festa ruim da qual não se pode ir embora por depender de carona. Vai passar. A dor que se tornara do tamanho do esforço pra esquecer ou então acreditar que nada disso realmente existiu. Vai passar. Esses amontoados de restos e entulhos que a gente sempre demora pra limpar e foram estocados no lugar mais alto, desabando de repente sobre a cabeça. Vai passar. A garganta magoada pelo choro engolido, com a vontade da desistência. As alegrias não são mais como deveriam. As tristezas não são mais como deveriam. Não saber quando nem onde lateja as feridas é o que dói mais. O riso também será pela metade. Vai passar. Falarás pra todos que ele era um canalha. Gritarás paras vizinhas do outro lado da rua ouvirem que ele era um imbecil. Convencerás as amigas de que ele não presta, era desleal e que tá bem melhor assim, obrigada. O chamarás de filho-da-puta. Chorarás perdida por entre as madrugadas, quando a verdade for bem maior que a tua vontade de mentir. Quem foge da dor, perde. Quem mergulha na fragilidade, perde. Vai passar. As memórias em pedaços. Cortinas cerradas. A pele gritando por um abrigo. Vai passar. As esperanças guardadas na cabeceira da cama. As gavetas das meias um pouco mais vazias. Terás mais desesperos do que roupas pra vestir em teus cabides. Vai passar. Arriscarás alguns absurdos para aceitar que tomara a atitude adequada. Repetirás crueldades para se tranquilizar e se convencer de que esteve certa. Terás todos os motivos, razões e lógicas pra justificar a ausência. As explicações não dando conta de todo o mistério. Vai passar. Talvez se arrependa e volte atrás umas duas ou três vezes. Mas será só isso. A incompreensão será teu complexo de inferioridade. A saudade será tua neurose obsessiva. Formarão um enigma. Vai passar. Adquirirás novos hábitos. Colecionarás solas de sol, sonhos sem sentidos. Silêncios. Soluços. Vai passar. Cavarás a terra por dentro da terra. Serás a lagarta encasulada que não quis virar mariposa colorida pra não perder a compostura. Talvez até arrisque a fumar. Mas vai logo passar. Mesmo que não queiras, vai passar. Não adianta se opor a extinção. O amor vai morrer faminto por absoluta falta de cuidado. As lembranças serão deserdadas, parte das fotos em antigos porta-retratos sumirão de repente, as cartas serão excluídas dos rascunhos. O telefone sairá do mudo. Vai passar. Se abrirá novamente ao amor. O sentimentalismo no plexo frontal da memória. Se as coisas não aconteceram é porque não aconteceram. Pura pretensão sua acreditar que se fechou, que pode decidir quando e como dirigir sua vida. A sede arde, mas não seca. Vai passar. Tu passeias ao som de passarinhos. Vai passar, infelizmente. Tudo o que sonhou construir juntos vai passar. Tudo o que idealizou, amou, inventou e armou vai passar. O lugar quente no peito que recebia o rosto para dormir vai passar. Os apelidos, pedidos, piadas vão passar. Vai passar. Não lutaram contra o mundo, não superaram os medos do desconhecido, sucumbiram na terceira crise, desistiram de insistir. Foram fracos, foram influenciáveis, incompetentes, infantis, foram tolos. Foi muita pequenez de ambas as partes. Foram muito menores do que aquilo que vivenciaram juntos. Não serão inesquecíveis, impenetráveis, invencíveis. Vai passar.
Michael Letto (via t-a-q-u-i-c-a-r-d-i-a)
… Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra pra frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Clarice Lispector  (via t-a-q-u-i-c-a-r-d-i-a)

(Source: auroriar)

Meu universo é diferente dos demais, não aceito histórias pelas metades, sou exigente e amante do infinito, meus pensamentos são violentos e espancam meu interior, tenho saudades constantes, mas não sei exatamente de quem, ou do que. Vivo na angustia da espera por algo incerto, quero tudo, quero o mundo, e daqui a dois minutos, já não quero nada, tudo se torna piada. Não sei quem sou, o que faço, me sinto um reflexo de algo abstrato. Ando perdido, sem norte, sem bússola, sem estrela guia, sem santo, sem céu. Ando na sombra, na névoa, sempre com um toque amargurado, enfraquecido que raramente é compreendido, passo um bom tempo olhando nos meus próprios olhos, buscando respostas que tragam sentido. Talvez eu seja o sonho de alguém, que depois de um longo dia cansativo, deitou, mas em vida nunca me encontrou. Aqueles que me vêem diariamente mal sabem que a dor, na minha porta bateu, e na minha alma se alastrou - como o fogo que inflamou e destruiu tudo por onde andou.
Sean Wilhelm.  (via t-a-q-u-i-c-a-r-d-i-a)

(Source: seanwilhelm)

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